Situado em meio a uma vegetação fechada de difícil acesso e cercado por formações areníticas cuja origem de tão antiga se perdeu na névoa dos tempos, encontramos o Salão dos Índios no povoado de Picos dos André na zona rural de Castelo do Piauí, distante 25 km da sede do município. O lugar foi por longos períodos de tempo muito povoado, servindo de abrigo ou moradia para populações indígenas e primitivas que deixaram vários vestígios de suas passagens.

Uma história contada entre os mais antigos moradores da região é a de que o Salão dos Índios servia como uma espécie de entreposto comercial para trocas de mercadorias e para antigos rituais dos Índios nativos. Os rituais de iniciação, por exemplo, consistia em fazer com que neófitos fossem separados do convívio social para depois voltar de maneira transformada já em um guerreiro.

Já os rituais funerários eram para separar os vivos dos mortos, fazendo que o último retorne ao outro mundo, mundo não humano. Nesses rituais funerários ou pós-funerário entre os povos indígenas, muitas vezes eram aproveitados para a realização da iniciação de jovens.

O Perrengue

Para conseguir chegar ao Salão dos Índios, contamos com a valorosa ajuda do mateiro e experiente guia local Carlos Henrique Almeida que por suas habilidades, certamente é descendente destes bravos guerreiros que habitaram a região. Também nos acompanhou nessa aventura, o historiador Paulo Clímaco Alves, ambos são respectivamente profundos conhecedores da região e da história dos povos indígenas piauienses.

Percorremos aproximadamente cinco quilômetros na vegetação fechada e espinhenta usando o auxílio do facão para abrir caminho, outra hora testando nossas habilidades na escalada de rochas sedimentares que se formaram pela compactação de sedimentos ao longo das eras geológicas, algumas literalmente pedras de areia, que tornava a subida ainda mais difícil.

Em uma delas teve um pequeno perrengue por conta das abelhas que faziam morada na parede da rocha e fizeram Paulo e Carlos descerem às pressas por uma árvore que coincidentemente estava ali para socorrê-los. Eu escalava pelo outro lado quando ouvi a voz de meus companheiros avisando para desistir quando já me aproximava do topo para fotografar e registrar um sítio arqueológico.

Passado o susto, enfim chegamos ao nosso destino e todo o esforço e cansaço foram recompensados com a beleza singular da visão panorâmica do lugar e por conhecer uma das maiores concentrações de arte rupestre do Piauí, composta por figuras antropomorfas, zoomorfas e fitomorfas além de uma marcante policromia.

Na hora em que estávamos no Salão dos Índios, Paulo e eu conversávamos quando tive uma forte lembrança das populações indígenas do Brasil que sofreram verdadeiro genocídio por causa da cobiça do colonizador europeu e de quanto aquele lugar foi importante no passado para muitas civilizações que tinham um modo de vida primitivo em que as sociedades eram baseadas nas ações de coletores e caçadores com uma agricultura rudimentar, tirando somente o necessário da natureza para suas sobrevivências. 

Tribos indígenas da região

Antes da chegada dos invasores as terras que hoje fazem parte do Piauí, diferentes etnias indígenas já povoavam os mais distantes rincões de terras do nosso atual estado desde o litoral até interior, antes mesmo da vinda do colonizador português ao Brasil.

Dentre as etnias indígenas destacam-se os Acroás, Araiozes, Aruás, Cariris, Gueguês, Jaicozes, Pimenteiras, Potis, Tabajaras, Tacarijus, Tremembés dentre outros grupos. Os grupos ou tribos indígenas que habitaram nossa região faziam parte da etnia Tapuia, índios que não falavam a língua tupi e que viviam mais no interior do Brasil, considerados guerreiros e exímios arqueiros, diferentemente dos tupinambás que se fixaram mais próximo do litoral.

A citada região foi palco também de inúmeros enfrentamentos de tribos rivais, principalmente com os índios Tabajaras da Serra da Ibiapaba e também com os bandeirantes paulistas que praticamente dizimaram as populações através do bandeirismo de preação e do sertanismo de contrato.

Uma das tribos que mais se ouve falar aqui na região são os Tacarijus que habitavam toda essa faixa de terra que se estende até a grande cuesta da Ibiapaba no Ceará. Esses grupos deixaram nas paredes das rochas muitos indícios de suas presenças através das inscrições rupestres, pilões de pedras, utensílios como arco e flecha, bestas e hábitos na cultura local.

Texto e fotos: Augusto Júnior e Juscelino Reis.

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